Fim da escala 6x1: o que muda no seu restaurante, quanto custa e como se preparar

Dois cozinheiros de avental listrado montando pratos numa bancada de aço de cozinha profissional durante o turno

No dia 2 de setembro de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o parecer da PEC 221/2019 — a proposta que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais. O texto agora está pronto para o plenário.

Nas horas seguintes, todo dono de bar e restaurante do país recebeu a mesma mensagem em três grupos de WhatsApp diferentes, sempre com alguma variação de "acabou". Vale a pena separar o que é fato do que é barulho, porque tem gente se preparando para a data errada e gente não se preparando para nada.

O assunto em cinco linhas

  1. Ainda não é lei, mas passou na Câmara por 472 a 22 e na CCJ do Senado sem nenhuma emenda aceita. Falta o plenário, com votação prometida para outubro de 2026.
  2. O prazo real é 60 dias após a promulgação, não 14 meses. Os 14 meses valem só para as duas últimas horas da jornada — a virada da 6x1 para a escala 5x2 vem antes.
  3. O custo fica entre +10% e +20% na folha, e a diferença entre os dois está no quanto a sua escala aceita meio período e turno curto.
  4. No cardápio, dá cerca de 7% — e, com 7 em cada 10 casas fechando o mês sem lucro hoje, absorver o custo não é uma opção realista para a maioria.
  5. A hora de mexer nisso é agora, com a casa calma, e não em dezembro com 60 dias de prazo e a ceia em cima.

Se alguma dessas cinco linhas te surpreendeu, vale ler o resto: abaixo está de onde sai cada um desses números, lido do ponto de vista de quem tem a folha de pagamento no nome — o que já está decidido, o que ainda não está, quanto tempo você tem de verdade e quais são as saídas reais.

1. Ainda não é garantido — mas está mais perto do que nunca

Comecemos pela parte honesta: a PEC ainda não é lei. Nada muda no seu restaurante amanhã, nem no mês que vem.

Dito isso, ignorar seria um erro, porque o caminho já andou quase todo:

Na Câmara, já passou — e passou com folga. Em 27 de maio de 2026, foram 472 votos a 22 no primeiro turno e 461 a 19 no segundo. Não foi uma votação apertada nem dividida por partido: foi quase unanimidade.

No Senado, passou na CCJ em 2 de setembro, em votação simbólica. O relator, senador Omar Aziz, rejeitou todas as emendas apresentadas e manteve o texto da Câmara palavra por palavra. Isso importa por um motivo prático: se o Senado tivesse mudado o mérito, a PEC voltaria para a Câmara e o assunto se arrastaria por mais um ano. Do jeito que está, se o plenário do Senado aprovar, vai direto para promulgação.

Falta o plenário do Senado: duas votações, cada uma exigindo no mínimo 49 votos favoráveis. É aqui que mora a incerteza. O governo contabilizou algo entre 53 e 54 votos — margem apertada demais para arriscar, e por isso a votação não foi ao plenário na mesma semana. A oposição obstruiu justamente para adiar.

O líder do governo, Randolfe Rodrigues, garantiu votação até o fim de outubro de 2026, de preferência antes do primeiro turno das eleições, em 4 de outubro.

Traduzindo para a linguagem de quem toca uma casa: não é certeza, mas é o cenário mais provável. Uma proposta que passou com 472 votos numa casa e sem nenhuma emenda aceita na comissão da outra dificilmente morre no plenário. Planejar como se não fosse acontecer é uma aposta ruim — e, como você vai ver no item 3, é uma aposta que custa caro se der errado.

2. O que exatamente muda (a tabela para salvar no celular)

Esqueça as manchetes. O texto aprovado muda quatro coisas na sua escala — e só quatro:

Marco Quando O que passa a valer
Promulgação Depois de 2 votações no plenário do Senado (49 votos cada). Prometida para outubro de 2026 Nada muda ainda. Começa a contar o relógio
+ 60 dias 2 meses após a promulgação Acaba a 6x1. Passam a valer 2 folgas remuneradas por semana (uma preferencialmente no domingo) e jornada de 42 horas
+ 14 meses 1 ano e 2 meses após a promulgação Jornada máxima chega aos 40 horas semanais
O tempo todo Desde o primeiro dia Teto de 8 horas por dia e proibição de reduzir salário

Quatro pontos que a maioria das notícias não deixa claro e que mudam sua decisão:

As folgas não precisam ser consecutivas. Você não é obrigado a dar sábado e domingo juntos. Pode dar segunda e quinta. Isso salva o fim de semana da sua operação e é, de longe, a informação mais subestimada do texto todo.

Domingo é "preferencialmente", não "obrigatoriamente". Ninguém vai te obrigar a fechar aos domingos nem a esvaziar a escala do dia mais cheio da semana.

A escala 12x36 e a média mensal de folgas ficaram para atividades essenciais — saúde, segurança e transporte —, e mesmo assim só por acordo coletivo. Bar e restaurante não estão nessa lista. Se alguém te disser que dá para resolver tudo com 12x36, essa pessoa leu a notícia por cima.

A exceção dos salários altos não te alcança. Ficam fora do limite de jornada quem tem diploma superior e ganha acima de 2,5 vezes o teto do INSS (R$ 21.188,87). Isso não descreve garçom, cozinheiro, chapeiro nem caixa.

3. A pegadinha do calendário: o prazo não é 14 meses, é 60 dias

Este é o ponto que mais gente está errando, e é o motivo de este texto existir.

A imprensa repete "transição de 14 meses", e o dono de restaurante ouve "tenho mais de um ano para me organizar". Não tem.

Os 14 meses valem só para o último pedaço da conta: sair de 42 para 40 horas. O que realmente vira sua operação de cabeça para baixo — as duas folgas semanais, ou seja, a troca da 6x1 pela escala 5x2 — entra em vigor 60 dias depois da promulgação.

Sessenta dias é o prazo para contratar, treinar e refazer a escala inteira da casa. Se a PEC for promulgada em outubro, isso cai no meio do fim de ano — dezembro, ceia, confraternização, o período mais cheio e mais difícil de contratar do ano.

A diferença entre as duas etapas, em termos de esforço, não chega perto de ser meio a meio. Ganhar duas horas por semana por pessoa é ajuste de escala. Perder um dia de trabalho por semana de cada funcionário é reconstrução de escala.

4. Quanto custa: a conta que quase ninguém faz direito

Você vai ver "20% a mais na folha" repetido em todo lugar — é a projeção da Abrasel. O número está certo, mas sozinho ele não ajuda, porque não diz de onde vem nem o que você pode fazer para não pagar tudo isso. Vamos abrir.

Existem duas contas diferentes, e a sua vai cair em algum ponto entre elas.

O piso é +10%, e vem das horas. Cada pessoa passa a entregar 40 horas em vez de 44 — 9,1% a menos. Para repor as horas que sumiram, você precisa de 44 ÷ 40 = 1,10, ou seja, 10% mais horas de equipe. Numa casa com 10 pessoas, é exatamente uma pessoa a mais.

O teto é +20%, e vem dos dias. Se um posto exige uma pessoa presente todo dia que a casa abre, cada funcionário cobre agora 5 dias em vez de 6. E 6 ÷ 5 = 1,20. É daí que sai o número da Abrasel — não da jornada, mas do dia perdido.

Onde você cai depende de uma coisa só: o quanto sua escala é fracionável. Se todo posto da sua casa é "uma pessoa, do abre ao fecha, sem divisão", você vai para perto dos 20%. Se você consegue cobrir buracos com turno curto, meio período e gente polivalente, fica perto dos 10%. Essa é a alavanca. É literalmente metade do custo da mudança.

Na folha, com uma casa que gasta R$ 30 mil por mês com pessoal:

Cenário Aumento na folha Por mês Por ano
Escala fracionável (meio período, turno curto) +10% R$ 3.000 R$ 36.000
Meio-termo realista +15% R$ 4.500 R$ 54.000
Todo posto exige presença diária integral +20% R$ 6.000 R$ 72.000

Pegue agora a sua folha real e faça essas três multiplicações. São trinta segundos, e é o número mais importante desta conversa.

5. O que isso faz com o preço do cardápio

A Abrasel projeta reajuste de 7% a 8% nos preços ao consumidor. Fizemos a conta por fora, com uma estrutura de custo comum no setor, e ela bate direitinho.

Considere uma casa em que, para cada R$ 100 de faturamento: R$ 33 vão em insumos (CMV), R$ 30 em folha, R$ 15 em outros custos fixos e R$ 10 em impostos. Sobram R$ 12 de lucro.

Se a folha sobe 20%, ela vai de R$ 30 para R$ 36. Seis reais a mais em cada R$ 100 faturados. O lucro cai de R$ 12 para R$ 6 — pela metade.

Para voltar ao lucro anterior sem vender um prato a mais, o preço precisa subir cerca de 6,7% — e chega perto de 7% porque o imposto sobre venda também acompanha o reajuste.

Sua escolha O que acontece com o preço O que acontece com o lucro
Repassa tudo +7% no cardápio Mantém o de hoje
Repassa metade +3,5% no cardápio Cai cerca de 3 pontos de faturamento
Absorve tudo Não mexe Cai cerca de 6 pontos — de 12% para 6%

E aqui vem a parte desconfortável. Em fevereiro de 2026, segundo a Abrasel, a fatia de bares e restaurantes operando no prejuízo saltou de 23% para 33% em um único mês. Somando com quem ficou no zero a zero, quase 7 em cada 10 casas fecharam o mês sem resultado positivo.

O motivo, aliás, é exatamente o hábito que o setor vai precisar rever: segurar preço para não perder cliente. A inflação de comida fora de casa subiu 0,34% em fevereiro, menos da metade do índice geral, de 0,70%. Ou seja, os restaurantes vinham absorvendo pressão de custo em vez de repassar.

Para a maioria das casas, portanto, "absorver" não é uma das opções. A coluna do meio da tabela é onde quase todo mundo vai parar.

6. As sete saídas, e o que cada uma cobra de você

Não existe uma única forma de montar uma escala 5x2 em restaurante, e nenhuma destas resolve sozinha. A adaptação de quem vai se sair bem vai ser uma combinação de quatro ou cinco delas.

Saída Como funciona O preço que ela cobra
Folgas não consecutivas Dar as duas folgas em dias fracos separados (ex.: segunda e quinta), preservando a equipe cheia de sexta a domingo Escala mais complexa de montar. É a saída mais barata que existe — comece por ela
Meio período no pico Contrato em regime parcial só para o almoço ou só para a noite, em vez de mais um integral Mais gente para treinar e coordenar. É o que te leva dos 20% para os 10%
Fechar o dia fraco Não abrir na segunda ou na terça e concentrar a equipe nos dias que pagam a conta Perde o faturamento do dia. Só vale se aquele dia hoje não cobre o próprio custo — confira antes
Polivalência Treinar gente que cobre dois postos, para o buraco da folga não virar uma contratação inteira Tempo de treinamento agora e, provavelmente, salário um pouco maior
Acordo coletivo Durante o ano de transição, acordo coletivo pode ampliar a jornada diária para facilitar a adaptação às 42h Depende do sindicato da sua região. Procure a Abrasel local agora, não depois
Hora extra Continua existindo: até 2h por dia, com adicional mínimo de 50% É a forma mais cara de cobrir. Como remendo pontual, serve; como escala fixa, sai mais caro que contratar
Cortar tempo improdutivo Encontrar as horas que sua equipe já gasta sem produzir nada e devolvê-las ao salão Exige olhar para a operação de verdade. É a única saída que não custa dinheiro nenhum

7. A saída que ninguém comenta: a hora que você já perde hoje

Quando a hora de trabalho fica 10% ou 20% mais cara, toda hora que sua equipe gasta sem produzir fica proporcionalmente mais cara também. E tem hora improdutiva demais escondida num restaurante.

Cronometre um garçom seu num sábado à noite. Boa parte do tempo dele não é anotar pedido nem levar prato:

É explicar o cardápio — o mesmo cardápio, para a décima mesa, com as mesmas cinco perguntas. É voltar à mesa para avisar que acabou o prato que a pessoa acabou de escolher, e começar tudo de novo. É procurar cardápio limpo quando entram quatro mesas juntas. É refazer pedido anotado errado porque a comanda saiu confusa.

Nenhuma dessas horas vira dinheiro. Todas elas vão ficar mais caras.

É exatamente aí que o cardápio digital deixa de ser modernidade e vira conta. Quando o cliente lê descrição e preço no próprio celular, o garçom não repete o cardápio dez vezes por noite. Quando um prato acaba e você marca "Esgotado" pelo celular, ele some da escolha de todo mundo na mesma hora — ninguém pede, ninguém precisa voltar à mesa para desfazer. E cardápio não some, não rasga e não precisa ser recolhido e higienizado entre mesas.

Isso não substitui uma contratação, e seria desonesto dizer que substitui. Mas é a única linha da tabela do item 6 que custa quase nada e devolve tempo de equipe justamente no momento em que tempo de equipe encareceu.

8. O outro lado da conta: a rotatividade

Um texto útil precisa mostrar as duas pontas, e existe uma que o setor discute pouco.

O sindicato dos trabalhadores do setor em São Paulo aponta que a escala 6x1 tem relação direta com desgaste físico, adoecimento e alta rotatividade. E rotatividade, para quem paga a conta, é um custo que já está na sua planilha hoje — só que diluído e mal medido: rescisão, anúncio de vaga, entrevista, exame admissional, semanas de treinamento e o período em que a pessoa nova ainda erra pedido e quebra louça.

Um levantamento da FGV em parceria com a Abrasel mostra que 58% das empresas do setor são fortemente afetadas pela baixa qualificação da mão de obra, e outros 27% sentem impacto moderado. Boa parte disso é consequência de gente que não fica tempo suficiente para se qualificar.

Não estamos dizendo que a folga extra se paga sozinha — a Abrasel é contra a proposta e tem argumentos legítimos, especialmente a falta de mão de obra disponível para contratar. O ponto é mais simples: se você conseguir segurar a equipe por mais tempo, uma parte daquele +20% volta na forma de menos contratação, menos treinamento e menos erro no salão. Quem tratar a mudança só como aumento de custo vai pagar o custo e não colher nada em troca.

9. O que fazer nos próximos 30 dias, mesmo sem aprovação

Nada aqui exige que a PEC passe. Tudo aqui é trabalho que melhora sua casa de qualquer jeito.

Conte seus postos de presença diária. Quantas funções, na sua casa, exigem uma pessoa presente todos os dias em que você abre? Esse número é a sua exposição. Quanto maior, mais perto dos 20% você vai ficar.

Faça as três multiplicações do item 4. Sua folha vezes 1,10, vezes 1,15 e vezes 1,20. Anote no papel. Deixe de ser um assunto de manchete e vire um número seu.

Desenhe uma escala 5x2 no rascunho, com folgas separadas. Sem contratar ninguém ainda — só para descobrir onde os buracos aparecem. Você vai encontrar dois ou três, não dez, e vai descobrir que alguns se resolvem trocando um turno de lugar.

Olhe o movimento por dia da semana. Se a segunda-feira não cobre o próprio custo hoje, ela não vai cobrir com a folha 20% maior. Melhor descobrir isso agora, com calma, do que em dezembro.

Revise seus preços com método, não no susto. Preço reajustado às pressas é preço reajustado errado. Você tem tempo de fazer isso direito — e é a diferença entre subir 7% onde precisa e subir 15% no prato errado, perdendo cliente à toa.

Nossas ferramentas grátis foram feitas exatamente para essa conta, não precisam de cadastro e ninguém aqui vê o que você digita: a calculadora de preço de prato tem o campo de custos fixos, que é onde a folha entra — mude de 45% para 51% e veja o preço se mexer; a calculadora de CMV mostra se ainda sobra gordura no insumo antes de você mexer no preço; e a calculadora de markup desmonta o "multiplica por 3", que já era impreciso antes e vai ficar perigoso depois.

Descubra quais pratos aguentam o reajuste. Alguns pratos sustentam a casa e outros só ocupam linha do cardápio — e não são os que você imagina. Com a folha mais pesada, essa diferença deixa de ser detalhe. É todo o assunto do nosso texto sobre engenharia de cardápio.

Fale com o sindicato patronal da sua região. O acordo coletivo é a ferramenta mais flexível que o texto oferece, e ela não se resolve na semana da promulgação.

A diferença entre as casas que vão atravessar bem essa mudança e as que vão apanhar não vai estar no tamanho do salão nem no dinheiro em caixa. Vai estar em quem já tinha a conta feita quando o prazo começou a correr.

Fontes

  1. Senado Federal — tramitação e texto da PEC 221/2019 (ementa oficial e situação atual da proposta).
  2. Câmara dos Deputados — aprovação em dois turnos (placares de 472 × 22 e 461 × 19, em 27/05/2026, e as regras de transição).
  3. Agência Senado — votação da PEC acontecerá até outubro (aprovação na CCJ, exigência de 49 votos em dois turnos e o calendário prometido).
  4. Agência Brasil — oposição obstrui e PEC não vai a plenário (a contagem de 53 a 54 votos do governo).
  5. CNN Brasil — o que muda e próximos passos após a CCJ (etapas da transição e emendas rejeitadas pelo relator).
  6. Abrasel — mais de um terço dos bares e restaurantes trabalhou no prejuízo em fevereiro (salto de 23% para 33% e a inflação de comida fora de casa em 0,34%).
  7. Forbes Brasil — possíveis impactos do fim da escala 6x1 na economia (projeções de custo por setor).
  8. Correio Braziliense — como restaurantes vão se adaptar (estratégias de reorganização de escala no setor).

Apurado em 3 de setembro de 2026, um dia depois da aprovação na CCJ do Senado. As contas de folha e de preço deste texto foram feitas por nós a partir dos números das fontes acima — a projeção de reajuste de cerca de 7% no cardápio, calculada de forma independente, coincide com a estimativa divulgada pela Abrasel. Enquanto a PEC não for votada no plenário do Senado, nada aqui vale como obrigação legal. Atualizaremos esta página quando houver votação.

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